ORIENTAÇÕES DIDÁTICAS
Orientações didáticas para os cursos escolares de Arte
referem-se ao modo de realizar as
atividades e às intervenções educativas junto dos estudantes
nos domínios do conhecimento artístico
e estético. São idéias e práticas sobre os métodos
e procedimentos para viabilizar o aperfeiçoamento
dos saberes dos alunos em Arte. Mas não são quaisquer métodos
e procedimentos e sim aqueles
que possam levar em consideração o valor educativo da ação
cultural da arte na escola. As orientações
didáticas referem-se às escolhas do professor quanto aos conteúdos
selecionados para o trabalho
artístico em sala de aula. Referem-se aos direcionamentos para que
os alunos possam produzir,
compreender e analisar os próprios trabalhos e apreender noções
e habilidades para apreciação
estética e análise crítica do patrimônio cultural
artístico.
A didática do ensino de Arte manifesta-se em geral em duas tendências:
uma que propõe
exercícios de repetição ou a imitação
mecânica de modelos prontos, outra que trata de atividades
somente auto-estimulantes. Ambas favorecem tipos de aprendizagens distintas
que deixam um
legado empobrecido para o efetivo crescimento artístico do aluno.
Em arte as estratégias individuais para a concretização
dos trabalhos são um fato; além disso, os
produtos nunca coincidem nos seus resultados. Para o aluno compreender e
conhecer arte e seus processos
de criação, torna-se portanto um excelente modelo de referência
e faz parte da orientação didática.
As atividades propostas na área de Arte devem garantir e ajudar as
crianças e jovens a
desenvolverem modos interessantes, imaginativos e criadores de fazer e de
pensar sobre a arte,
exercitando seus modos de expressão e comunicação.
Os encaminhamentos didáticos expressam, por fim, a seriação
de conteúdos da área e as
teorias de arte e de educação selecionadas pelo docente.
Criação e aprendizagem
O processo de conhecimento na área artística se dá especialmente
por meio da resolução de
problemas, assim como nas outras disciplinas do currículo escolar.
Quais questões devem ser
propostas para os alunos durante sua aprendizagem artística, ou, dito
de outro modo, o que é resolver
problemas em arte? A partir da reflexão sobre essa pergunta, são
apresentados alguns pontos
que visam orientar os professores de Arte na compreensão das tarefas
e papéis que podem
desempenhar a fim de instrumentalizar o processo de aprendizagem dos alunos.
Pode-se identificar
duas classes de problemas que fazem parte do conjunto de atividades da área
artística:
- — Problemas inerentes ao percurso criador do aluno, ligados
à construção da forma artística, ou seja, à
criação, envolvendo questões relativas às técnicas,
aos materiais e aos modos pessoais de articular sua possibilidade expressiva
às técnicas e aos materiais disponíveis, organizados
numa forma que realize sua intenção criadora. No percurso criador
específico da arte, os alunos estabelecem relações entre
seu conhecimento prévio na área artística e as questões
que um determinado trabalhodesperta, entre o que querem fazer e os recursos
internos e externos de que dispõem, entre o que observam nos trabalhos
dos artistas, nos trabalhos dos colegas e nos que eles mesmos vêm realizando.
Estabelecem relações entre os elementos da forma
artística que concorrem para a execução daquele trabalho
que estão fazendo, como, por exemplo, as relações entre
diferentes qualidades visuais, sonoras, de personagens, de espaço
cênico, etc. Além disso, tomam decisões e fazem escolhas
quanto a materiais, técnicas, instrumentos musicais, tipos de personagens
e formas de caracterizálos e assim por diante.
São questões que se apresentam durante sua atividade individual
ou grupal, que mobilizam o conhecimento que têm dos conteúdos
de Arte, suas habilidades em desenvolvimento, sua curiosidade, segurança
ou insegurança interna para experimentar e correr riscos, suas possibilidades
de avaliar resultados, o contato significativo com suas necessidades expressivas,
sua percepção com relação aos passos de seu processo
de criação, sua sensibilidade para observar e refletir sobre
seu trabalho e seguir os caminhos que este lhe suscita, sua disponibilidade
para conviver com a incerteza e o resultado não-desejado e muitas
outras possibilidades que fazem parte de todo processo de criação.
O professor precisa compreender a multiplicidade de situações-problema
que podem ocorrer das mais diversas maneiras e se apresentam a cada aluno
em particular, segundo seu nível de competência e as determinações
internas e externas de um momento singular de criação, dentro
de seu processo de aprender a realizar formas artísticas.
- — A aprendizagem dos alunos também pode se dar por meio de
uma outra classe de problemas, inerente às propostas feitas pelo professor,
que caracterizam uma intervenção fundamentada em questionamentos
como parte da atividade didática. Tal intervenção pode
ocorrer em vários aspectos dessa atividade, antes e durante o processo
de criação artística dos alunos e também durante
as atividades de apreciação de obras de arte e de reflexão
sobre artistas e outras questões relativas aos produtos artísticos.
É importante esclarecer que a qualidade dessa intervenção
depende da experiência que o professor tem, tanto em arte quanto de
seu grupo de alunos. É fundamental que o professor conheça,
por experiência própria, as questões que podem ocorrer
durante um processo de criação, saiba formular para si mesmo
perguntas relativas ao conhecimento artístico e saiba observar seus
alunos durante as atividades que realizam, para que esse conjunto de dados
conduza suas intervenções e reflexões.
É nisso que reside a diferença entre uma intervenção
mecânica, artificial, “programada”, ou que visa apenas testar o nível
de conhecimento imediato dos alunos, que é, enfim, fruto da aplicação
de uma técnica que por si mesma orienta o trabalho dos alunos para
a vivência de problemas e um outro tipo de interferência que
leva em consideração o conjunto de dados, fazendo parte, portanto,
da interação entre o professor e seus alunos na produção
de um conhecimento vivo e significativo para ambos.
A intervenção do professor abarca diferentes aspectos
da ação pedagógica e caracteriza-se como atividade criadora,
tendo como princípio que ele é antes de mais nada um educador
que intencionalmente cria, sente, pensa e transforma. Estão relacionadas
a seguir algumas situações em que a intervenção
do professor pode se dar, apresentadas como orientações didáticas
para seu trabalho.
A ORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO E DO TEMPO DE TRABALHO
É importante que o espaço seja concebido e criado pelo professor
a partir das condições existentes na escola, para favorecer
a produção artística dos alunos. Tal concepção
diz respeito:
• à organização dos materiais a serem utilizados
dentro do espaço de trabalho;
• à clareza visual e funcional do ambiente;
• à marca pessoal do professor a fim de criar “a estética do
ambiente”, incluindo a participação dos alunos nessa proposta;
• à característica mutável e flexível do espaço,
que permita novos remanejamentos na disposição de materiais,
objetos e trabalhos, de acordo com o andamento das atividades.
Um espaço assim concebido convida e propicia a criação
dos alunos. Um espaço desorganizado, impessoal, repleto de clichês,
como as imagens supostamente infantis, desmente o propósito enunciado
pela área. A criação do espaço de trabalho é
um tipo de intervenção que “fala” a respeito das artes e de
suas características por meio da organização de formas
manifestadas no silêncio, em ruídos, sons, ritmos, luminosidades,
gestos, cores, texturas, volumes, do ambiente que recebe os alunos, em consonância
com os conteúdos da área.
Um bom planejamento precisa garantir a cada modalidade artística no
mínimo duas aulas semanais, em seqüência, a cada ano, para
que o aluno possa observar continuidade e estabelecer relações
entre diversos conteúdos, tanto em relação aos conceitos
da área quanto ao próprio percurso de criação
pessoal. Por exemplo, se Artes Visuais e Teatro forem eleitos respectivamente
na primeira e segunda séries, as demais formas de arte poderão
ser abordadas em alguns projetos
interdisciplinares, em visitas a espetáculos, apresentações
ou apreciação de reproduções em vídeos,
pôsteres, etc. A mesma escola trabalhará com Dança e
Música nas terceira e quarta séries, invertendo a opção
pelos projetos interdisciplinares.
OS INSTRUMENTOS DE REGISTRO E DOCUMENTAÇÃO DAS ATIVIDADES
DOS ALUNOS
Neste plano, o professor também é um criador de formas de registrar
e documentar atividades. Tais registros desempenham um papel importante na
avaliação e no desenvolvimento do trabalho, constituindo-se
em fontes e recursos para articular a continuidade das aulas. São,
dentre outros, relatos de aula, as observações sobre cada aluno
e sobre as dinâmicas dos grupos, a organização dos trabalhos
realizados pelos alunos segundo critérios específicos, as perguntas
surgidas a partir das propostas, descobertas realizadas durante a aula, os
tipos de documentação, propostas de avaliação
trabalhadas durante as aulas e as propostas de registros sugeridas pelos
alunos, tais como fichas de observação, cadernos de percurso,
“diários de bordo” e instrumentos pessoais de avaliação.
A PESQUISA DE FONTES DE INSTRUÇÃO E DE COMUNICAÇÃO
EM ARTE
Outra vez se estabelece o caráter criador da atividade de pesquisa
do professor. Trata-se da necessidade de buscar elementos disponíveis
na realidade circundante que contribuam para o enriquecimento da aprendizagem
artística de seus alunos: imagens, textos que falem sobre a vida de
artistas (seus modos de trabalho, a época, o local), levantamento
sobre artistas e artesãos locais, revistas, vídeos, fitas de
áudio, cassetes, discos, manifestações artísticas
da comunidade, exposições,
apresentações musicais e teatrais, bem como acolhimento dos
materiais trazidos pelos alunos.
A HISTÓRIA DA ARTE
O professor precisa conhecer a História da Arte para poder escolher
o que ensinar, com o objetivo de que os alunos compreendam que os trabalhos
de arte não existem isoladamente, mas relacionam-se com as idéias
e tendências de uma determinada época e localidade. A apreensão
da arte se dá como fenômeno imerso na cultura, que se desvela
nas conexões e interações existentes entre o local,
o nacional e o internacional.
A PERCEPÇÃO DE QUALIDADES ESTÉTICAS
O professor precisa criar formas de ensinar os alunos a perceberem as qualidades
das formas artísticas. Seu papel é o de propiciar a flexibilidade
da percepção com perguntas que favoreçam diferentes
ângulos de aproximação das formas artísticas:
aguçando a percepção, incentivando a curiosidade, desafiando
o conhecimento prévio, aceitando a aprendizagem informal que os alunos
trazem para a escola e, ao mesmo tempo, oferecendo outras perspectivas de
conhecimento.
A PRODUÇÃO DO PROFESSOR E DOS ALUNOS
O professor na sala de aula é primeiramente um observador de questões
como: o que os alunos querem aprender, quais as suas solicitações,
que materiais escolhem preferencialmente, que conhecimento têm de arte,
que diferenças de níveis expressivos existem, quais os mais
e os menos interessados, os que gostam de trabalhar sozinhos e em grupo,
e assim por diante. A partir da observação constante e sistemática
desse conjunto de variáveis e tendências de uma classe, o
professor pode tornar-se um criador de situações de aprendizagem.
A prática de aula é resultante da combinação
de vários papéis que o professor pode desempenhar antes, durante
e depois de cada aula.
• o professor é um pesquisador de fontes de informação,
materiais e técnicas;
• o professor é um apreciador de arte, escolhendo obras e artistas
a serem estudados;
• o professor é um criador na preparação e na organização
da aula e seu espaço;
• o professor é um estudioso da arte, desenvolvendo seu conhecimento
artístico;
• o professor é um profissional que trabalha junto com a equipe da
escola.
• o professor é um incentivador da produção
individual ou grupal; o professor propõe questões relativas
à arte, interferindo tanto no processo criador dos alunos (com perguntas,
sugestões, respostas de acordo com o conhecimento que tem de cada
aluno, etc.) quanto
nas atividades de apreciação de obras e informações
sobre artistas (buscando formas de manter vivo o interesse dos alunos,
construindo junto com eles a surpresa, o mistério, o humor, o divertimento,
a incerteza, a questão difícil, como ingredientes dessas atividades);
• o professor é estimulador do olhar crítico dos alunos com
relação às formas produzidas por eles, pelos colegas
e pelos artistas e temas estudados, bem como às formas da natureza
e das que são produzidas pelas culturas;
• o professor é propiciador de um clima de trabalho em que a curiosidade,
o constante desafio perceptivo, a qualidade lúdica e a alegria estejam
presentes junto com a paciência, a atenção e o esforço
necessários para a continuidade do processo de criação
artística;
• o professor é inventor de formas de apreciação da
arte — como, por exemplo, apresentações de trabalhos de alunos
— e de formas de instrução e comunicação: visitas
a ateliês e oficinas de artesãos locais, ensaios, maneiras inusitadas
de apresentar dados sobre artistas,
escolha de objetos artísticos que chamem a atenção dos
alunos e provoquem questões, utilizando-os como elementos para uma
aula, leitura de notícias, poemas e contos durante a aula;
• o professor é acolhedor de materiais, idéias e sugestões
trazidos pelos alunos (um familiar artesão, um vizinho artista, um
livro ou um objeto trazido de casa, uma história contada, uma festa
da comunidade, uma música, uma dança, etc.);
• o professor é formulador de um destino para os trabalhos dos alunos
(pastas de trabalhos, exposições, apresentações,
etc.);
• o professor é descobridor de propostas de trabalho que visam sugerir
procedimentos e atividades que os alunos podem concretizar para desenvolver
seu processo de criação, de reflexão ou de apreciação
de obras de arte. Assim, exercícios de observação de
elementos
da natureza ou das culturas, por exemplo, podem desenvolver a percepção
de linhas, formas, cores, sons, gestos e cenas, o que contribuirá
para o enriquecimento do trabalho artístico dos alunos;
• o professor é reconhecedor do ritmo pessoal dos alunos, o que envolve
seu conhecimento da faixa etária do grupo e de cada criança
em particular;
• o professor analisa os trabalhos produzidos pelos alunos junto com eles,
para que a aprendizagem também possa ocorrer a partir dessa análise,
na apreciação que cada aluno faz por si do seu trabalho com
relação aos dos demais.
• o professor é articulador das aulas, umas com relação
às outras, de acordo com o propósito que fundamenta seu trabalho,
podendo desenvolver formas pessoais de articulação entre o
que veio antes e o que vem depois;
• o professor é avaliador de cada aula particular (contando com instrumentos
de avaliação que podem ocorrer também durante o momento
da aula, realizados por ele e pelos alunos) e do conjunto de aulas que forma
o processo de ensino e aprendizagem; tal avaliação deve integrar-se
no projeto curricular da sua unidade escolar;
• o professor é imaginador do que está por acontecer na continuidade
do trabalho, com base no conjunto de dados adquiridos na experiência
das aulas anteriores.
AS ATITUDES DOS ALUNOS
Durante o trabalho, o professor mostra a necessidade de desenvolvimento de
atitudes não como regras exteriores, mas como condições
que favorecem o trabalho criador dos alunos e a aprendizagem significativa
de conteúdos.
O respeito pelo próprio trabalho e pelo dos outros, a organização
do espaço, o espírito curioso de investigar possibilidades,
a paciência para tentar várias vezes antes de alcançar
resultado, o respeito pelas diferenças entre as habilidades de cada
aluno, o saber escutar o que os outros dizem numa discussão, a capacidade
de concentração para realização dos trabalhos
são atitudes necessárias para a criação e apreciação
artísticas. É importante que o professor descubra formas de
comunicação com os alunos em que ele possa evidenciar a necessidade
e a significação dessas atitudes durante o processo de trabalho
dos alunos.